Quinta-feira, 15 de Março de 2012

Maurício Silva Rocha

Já com o projeto desenhado das histórias de vida dos utentes da Casa de Santa Marta, estávamos a delinear o esqueleto do blog quando num dia de novembro passado calhámos na receção em dois dedos de conversa com o Sr. Mauricio. Nas conversas, sempre gostámos mais de ouvir do que falar, principalmente quando o que se ouve é para nós uma descoberta de experiências e histórias vividas, longe de serem imaginadas ou adivinhadas dentro da memória de quem as transporta. “Ele que lhe fale da doença do sono”, propunha a rececionista. Olhando-o nos olhos, interrogámo-nos em voz alta, a nós e ao Sr. Maurício – A doença do sono?

 

A conversa durou cerca de uma hora. Ficámos a saber tudo que há para saber sobre a doença do sono, ao pormenor, viajamos por Moçambique, pela Europa pelos Estados Unidos da América, fomos até Vila Verde de Oura, andamos de VW carocha azul-bebé pelas ruas de Vidago … sem o saber, tínhamos perante nós a primeira história de vida para este blog, apenas nos faltava o registo.

 

Combinamos nova conversa que viria a acontecer poucos dias depois onde, milimetricamente, nos foram repetidos todos os passos e viagens da sua vida mais antiga, pois quanto à recente, como se de um “tabu” se tratasse, o Sr. Maurício pouco ou nada nos contou.

 

Passemos então à apresentação:

 

 

Nome: Maurício Silva Rocha

 

Data de nascimento: 16 de Outubro de 1927

 

Naturalidade: Mt Vernon, NY, Estados Unidos da América

 

Origem da família: Vila Verde de Oura, Chaves, Portugal

 

Estado de saúde: Sofre de HTA – Arteriosclerose Cerebral

 

Percurso de vida: Nasceuem Mt Vernononde os pais estavam então emigrados. Aos 4 anos de idade (1932) vem  com a família para Vila Verde de Oura onde fez a escola primária. Aos 17 anos (1944) embarca para Moçambique. Após os acontecimentos do 25 de Abril de 1974, regressa a Portugal, de novo para Vila Verde de Oura. Em 31 de Março de 2010 ingressa na Casa de Santa Marta como utente, onde se mantém na atualidade.

 

 

Até aos 17 anos dedicou-se à agricultura. Pelo vínculo do nascimento, tinha o sonho de regressar aos EUA, mas o pai, argumentando que a América andava sempre em guerra e com o medo que o filho fosse mobilizado para uma delas, nunca o deixou partir.

 

Com as portas dos EUA “fechadas”, em 1944 embarca para Moçambique onde já tinha mais seis irmãos. Começa a trabalhar como assistente auxiliar de veterinária para o Estado português, numa missão de combate à tripanossomíase africana, também conhecida pela doença do sono. Primeiro em Mambone, na margem direita do Rio Save, no distrito Inhambane, onde fazia vacinação e prospeção com recolha de sangue em gado bovino infetado com a doença. Trabalho de campo que após recolha de sangue passava a trabalho de laboratório, seguido da elaboração do respetivo relatório que mais tarde enviava para a equipa de dois médicos veterinários, que procediam à análise de dados para o estudo no combate à doença do sono. Tratava-se dos médicos veterinários Dr. Luís Troni, que ficou conhecido como pioneiro no combate a esta doença e o Dr. José Marques da Silva, também ele pioneiro no combate à doença do sono e ao qual lhe são atribuídas a autoria de umas dezenas de publicações e estudos sobre veterinária, a tripanossomíase em Moçambique, a malária e outras patologias ligadas à pecuária.

 

Rio Save - Moçambique - Fotografia de Amanda Rossi

 

 

Sem qualquer dúvida podemos afirmar que o Sr. Maurício foi o homem de campo de recolha de dados de toda essa investigação de combate à doença do sono. Um trabalho que fazia com interesse e amor mas em condições difíceis e isolado do resto da civilização. Diz ele que por isso nunca chegou a casar, ou melhor  – “porque não podia, pois já se vê que aquilo não era lugar para uma mulher e depois havia as doenças, o paludismo…”.

 

À pergunta lançada de quanto tempo esteve no terreno a fazer esse trabalho, ele respondeu-nos:

 

- Fiquei lá até pagar a dívida!

 

- Até pagar a dívida!? Interpúnhamos.

 

- Sim, os vinte contos que tinha pedido emprestados para fazer a viagem para Moçambique.

 

Paga a dívida, o Sr. Maurício é colocado na capital,em  Lourenço Marques, como Assistente de Entomologia, ainda na missão de  prospeção da mosca do sono, onde trabalhou durante mais alguns anos.

 

Embora atualmente com um problema de saúde (Arteriosclerose Cerebral) que lhe afeta a memória mais recente, as vivências de Moçambique ficaram registadas para sempre. A determinada altura da conversa confessou-nos – “As vezes estou aqui mas penso que estou lá e nem sei se estou aqui ou lá…” mas foi cá que nos relatou todos os pormenores e gama de vírus e insetos da doença do sono: “Tripanossomas, trypanossoma vivax, trypanossoma brucei” e fez questão de no nosso bloco de apontamentos deixar registado em desenho o “trypanossoma brucei” que como podem comparar com os desenhos “científicos” que retiramos da INTERNET,  não andam longe da realidade, mesmo com alguma dificuldade que já se nota  em manobrar a esferográfica.

 

     

 

Nos inícios dos anos 60 o Sr. Maurício veio à metrópole, comprou um VW carocha de cor azul-bebé para as suas deslocações e, conta-nos com alguma vaidade, como as pessoas paravam e lançavam olhares aos passeios e passagens do carocha azul-bebé. Confessa-nos que “carros na altura não havia muitos e aquele era mesmo bonito”.

 

Já longe do sonho da américa e quase esquecido o arrependimento da ida para Moçambique, desimpedido de casamento e com algum dinheiro que tinha amealhado na mosca do sono, antes de voltar a Moçambique decidiu fazer uma viajem pela Europa. A solo, de mala na mão, sempre de comboio, visita Espanha, França, Bélgica, Holanda, Itália, Alemanha e Suíça, visitou as cidades, sítios e monumentos mais emblemáticos, sempre a falar a única língua que conhecia – o português – “ Não tive problema nenhum, lá me entendiam…” confessa ele.

 

De regresso a Moçambique continua a sua vida laboral em novas funções. Ficava para trás a mosca do sono e passava a Chefe de Secção de Camionagem dos Automóveis SFM Moçambique, quem sabe se pelo gosto que o VW carocha azul-bebé lhe despertou.

 

Regressa a Portugal após o 25 de Abril de 1974, de novo para a terra de origem da família – Vila Verde de Oura onde viveu até 2010. Deste período ou já não tem memórias ou não as quis abordar. De Vila Verde de Oura apenas nos falou de  algumas memórias de infância, do trabalho duro na agricultura ao qual às vezes, acompanhado por um irmão mais velho, fugia para irem jogar à bola. – “Ao chegar a casa apanhava sempre, ao meu irmão o meu pai nunca lhe tocou, eu é que as apanhava…”

 

No momento da publicação deste post, o Senhor Maurício continua a circular pelos corredores da Casa de Santa Marta, com bom aspeto mas com as traições da memória de uma doença que não se vê. Gosta de ir até junto à receção, estar por lá, olhar a entrada, lançar olhares calmos e reservados para o exterior, quem sabe a olhar o quê!?. Olha sempre nos olhos, com olhar expressivo, quem entra. Recentemente ainda tentámos abordá-lo para tirar umas dúvidas nos nossos apontamentos e aprofundar mais uma ou outra coisinha, mas a evolução da doença, hoje, já não lhe permite a clareza das recordações guardadas em memória.

 

publicado por Fer.Ribeiro às 18:28
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